Comida japonesa no Brasil: dos imigrantes ao hot roll
A comida japonesa chegou ao Brasil com os imigrantes do Kasato Maru, em 1908, mas ficou décadas restrita às famílias nikkeis e ao bairro da Liberdade. A popularização começou nos anos 1980 e 1990, e hoje o Brasil tem uma culinária japonesa própria, com criações que não existem no Japão, como o hot roll, o temaki como refeição principal, o sushi com cream cheese e frutas, e o yakisoba de feira. Os imigrantes também transformaram a agricultura brasileira, introduzindo ou popularizando frutas e verduras hoje comuns em qualquer feira.
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Como a comida japonesa se espalhou
Nas primeiras décadas, faltavam ingredientes básicos. Os imigrantes improvisavam missô e shoyu caseiros, plantavam arroz de grão curto e substituíam verduras japonesas por legumes locais nas conservas (tsukemono) e nos cozidos. Com as colônias e cooperativas, surgiram fábricas de shoyu, missô, tofu e macarrão no interior paulista e na capital.
A partir dos anos 1950, restaurantes na Liberdade passaram a atender o público geral. O salto veio nos anos 1990 e 2000, com o sushi associado à alimentação saudável, os rodízios a preço fixo e as temakerias. A comida japonesa saiu dos bairros nikkeis e chegou a shoppings, cidades do interior e aplicativos de entrega de todo o país.
Criações brasileiras
| Prato | O que é | No Japão |
|---|---|---|
| Hot roll (hot Philadelphia) | uramaki empanado e frito, com salmão e cream cheese, coberto com molho tarê | não existe |
| Temaki como refeição | cone de alga grande e recheado, comido como lanche principal | temaki existe, mas é feito em casa, menor e simples |
| Sushi com cream cheese | presente em quase todo combinado brasileiro | raro |
| Sushi de frutas e doce | manga, morango, kiwi, até chocolate | não existe |
| Rodízio japonês | sushi, sashimi e pratos quentes à vontade, a preço fixo | raro |
| Yakisoba de feira | macarrão com muito legume, carne e molho espesso de shoyu | o yakisoba japonês é mais seco, com molho tipo Worcestershire |
| Salmão em tudo | o salmão domina os combinados | atum, olhete e peixes brancos são mais comuns no sushi tradicional |
O salmão, importado sobretudo do Chile, virou sinônimo de sushi no Brasil a partir dos anos 1990, mas no Japão o salmão cru só entrou de vez no sushi entre os anos 1980 e 1990, com a promoção do salmão norueguês.
O pastel de feira
Uma das histórias mais repetidas liga o pastel de feira aos imigrantes japoneses, que teriam adaptado o guioza e o rolinho primavera chinês e, durante a Segunda Guerra, se apresentado como chineses para evitar hostilidade. Não há documentação conclusiva sobre a origem do pastel, mas é fato que famílias nikkeis dominaram por décadas as barracas de pastel nas feiras de São Paulo.
O sobá de Campo Grande
Em Campo Grande (MS), imigrantes de Okinawa que trabalharam na ferrovia Noroeste trouxeram o Okinawa soba, caldo de porco e peixe com macarrão de trigo grosso. O prato virou o "sobá" campo-grandense, servido em grandes tigelas na Feira Central e reconhecido como patrimônio cultural imaterial da cidade. Sobre a origem, veja província de Okinawa.
O legado na agricultura
A maior contribuição dos imigrantes à mesa brasileira talvez esteja no campo. Agricultores japoneses e suas cooperativas introduziram, adaptaram ou expandiram:
| Produto | Contribuição | Onde |
|---|---|---|
| Caqui (variedade fuyu) e pera nashi | seleção de variedades e cultivo comercial | interior de SP e PR |
| Morango | cultivo em escala comercial | Atibaia e região |
| Pimenta-do-reino | mudas trazidas de Cingapura em 1933 | Tomé-Açu (PA) |
| Chá preto | indústria do chá no Vale do Ribeira | Registro (SP) |
| Ovos | granjas em larga escala | Bastos (SP), a "capital do ovo" |
| Verduras e legumes | cinturão verde que abastece São Paulo | Mogi das Cruzes, Suzano, Ibiúna |
| Cogumelos shiitake e shimeji | cultivo comercial | interior de SP |
As colônias citadas estão em colônias japonesas no Brasil.
Onde comer comida japonesa "de colônia"
Além dos restaurantes da Liberdade, a cozinha caseira dos imigrantes aparece nas festas das associações (kaikan), nas barracas do Festival do Japão e em pratos que muitas famílias nikkeis preparam no Ano-Novo, como nishime (cozido de legumes) e mochi. Nas confeitarias de bairros nikkeis encontram-se manju, dorayaki e yōkan feitos com feijão-azuki plantado no Brasil.
Do Brasil para o Japão
O caminho inverso também existe: nas cidades com brasileiros no Japão, restaurantes servem churrasco, coxinha, pastel e pão de queijo, e supermercados brasileiros vendem guaraná e farofa. Alguns japoneses descobriram o açaí e o churrasco de rodízio por meio dessas comunidades.
Perguntas frequentes
Hot roll é comida japonesa?
Não no sentido tradicional. O hot roll é uma criação brasileira (com influência americana do uramaki com cream cheese) e praticamente não aparece em restaurantes no Japão.
Quando a comida japonesa ficou popular no Brasil?
Nos anos 1990 e 2000, com os rodízios, as temakerias e a associação do sushi à alimentação saudável. Antes disso, era consumida sobretudo por famílias nikkeis e no bairro da Liberdade.
O que é yakisoba de feira?
É a versão brasileira do yakisoba, com macarrão, muitos legumes, frango ou carne e molho espesso à base de shoyu, vendida em feiras livres. No Japão, o yakisoba é mais seco e leva molho do tipo sōsu.